domingo, 29 de novembro de 2009

Usina do crime (Isaías do Maranhão)

HOJE A MORTE ME VISITOU.

Arranquei da boca um xeque-mate
de palavras e baralhei os gritos
no afiado dos dentes.
Amarraram minhas mãos na mão da morte,
não neguei a hora, o derradeiro minuto
dormiu comigo.

Menino acorrentado, torno-me combatente.
Espio nas madrugadas geladas os rastros
dos inimigos e não dormirei um segundo
à morte de meu povo.

O crime era usinado, na mesa e no livro
da palavra. Minha boca ferida sonhava,
um dente de meu irmão embrulhado
na língua, caía em minha cela.
No corredor, um corpo era arrastado
por homens encapuzados.

Os fuzis pariam guerra, meu povo
a bebia como chaga na face encarcerada.

Meia-noite. Nas celas, os chicotes
cortavam palavras.

Do outro lado da vida, o povo
sentava-se à mesa servida a crime,
corrupção, medo e terror. E as promessas
dos deuses geravam folhas de primavera
queimada.

E neste cemitério de vivos,
foi proibido o canto, a palavra
e o sonho. E no inferno da USINA,
eu bebia torturas e a dor de minha
gente.

NO ACREDITAR, QUE UM DIA O POVO
VENCERÁ A MORTE.

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